wanna write a play like Billie Eilish
wanna write a play like Billie Eilish
wanna write a play like Billie Eilish é um espetáculo com direção de Carlos Costa, no contexto das dinâmicas colaborativas que marcam o trabalho do Visões Úteis, com estreia prevista para o outono de 2027, em torno do fascínio pelos gestos simples, capazes de curar ou restabelecer a paz e de uma equipa intergeracional apostada na partilha de sentidos e autoria. O processo criativo será articulado por duas oficinas, inspiradas pelas dinâmicas de clubes de teatro e de leitura, em particular pelo teatro da conversação e pela biblioterapia.
No TikTok multiplicam-se registos de um momento particular num concerto da Billie Eilish: ela está sentada, mesmo junto ao público, cantando “what was I made for”: I don't know how to feel, But I wanna try. E alguém lhe atira uma garrafa de água à cara; ela continua como se a garrafa não importasse: I don't know how to feel, But someday I might.
Nesta dinâmica - como que numa conversa - encontramos uma negociação social nos antípodas da proposta por Elliot Rodger (1991-2014), na obra “My Twisted World, the story of Elliot Rodger”. Considerando-se rejeitado pela humanidade, o autor desenvolve uma dramaturgia que se confunde com um ritual de passagem, ou melhor, com a impossibilidade de um ritual de passagem.
E se uma dramaturgia - uma qualquer dramaturgia - se define pela capacidade de se fazer ação, cena, performance, então “O Meu Mundo (dis)Torcido” é um exemplo assustador da capacidade de transformar uma narrativa acerca da falta de ação num guião para colocar em ação uma ideia tóxica.
O resultado foi mais um numa lista incontável de assassinatos em massa nos Estados Unidos da América; no seu caso - na Califórnia e antes de se suicidar - Rodger matou seis pessoas e feriu mais catorze.
Entretanto, uma das linhas em que mais se sente tensão - em termos de relações de poder e processos de cognição - é a geracional, em particular entre as gerações Z e X, desde logo separadas pela (não) crença no digital como parte do real. Quem já cresceu com um smartphone no bolso, aponta os Xs como masoquistas - martirizados com trabalho - cínicos - alimentam problemas - niilistas - não cuidam de nada - esquisitos - usam reticências - conservadores - não querem mudar pronomes; por outro lado X devolve a desconfiança a Z: frágeis - não sabem lidar com a ironia - sem educação - não atendem telefonemas - sem ética - não respeitam hierarquias - sem humor - desvalorizam a liberdade de expressão - e dependentes de validação alheia.
Este bias cruzado acaba por desconsiderar o que - apesar do isolamento e fragmentação e desconfiança - une estas gerações: pragmatismo, desencanto, riso, desenrascanço, fascínio pela autenticidade e desencanto institucional, enfim, mais sobrevivencialismo que romantismo.
Os Clubes de Teatro parecem ser a recuperação de uma dinâmica que, há cerca de 100 anos, confundia, no melhor dos sentidos, desporto com teatro, nomeadamente através de “associações dramáticas e desportivas”; e nesta evolução, transparece o abandono da ideia de “cursos”, mais próxima duma lógica de “ formação e desenvolvimento de públicos”, e que Portugal importou, no início do século XX, do Reino Unido, através do que se intitulava de “Serviços Educativos”.
O Teatro da Conversação é uma linha de atividade - entre clube e apresentação ao público - a fazer lembrar Brecht e Boal, mas mais focado na negociação social do que na ação política.
Os Clubes de Leitura - de que podemos encontrar pistas nos salões literários da Idade Moderna, e em particular do iluminismo - também ultrapassam uma ideia de educação para se focarem no desenho de espaços de resistência, reclamando coesão social, direito ao tempo e saúde mental.
A biblioterapia é uma atividade - entre clube de leitura e prática curativa - focada na capacidade da literatura para melhorar a qualidade de vida e proteger a saúde mental.