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Porto - Milão [
CM ]
Os traços das estradas são todos iguais. À volta
sabemos que não é assim e que a paisagem muda. O momento
em que isso acontece é que não existe. Quando é
que a Catalunha ficou diferente de Trás-os-Montes, quando é
que saímos dos Pirinéus, quando é que entrámos
na Côte-d'Azur,...? É tudo tão diferente e eu
nunca vi nada mudar realmente. Só traços sempre iguais.
Fazer 2000 Km em dois dias é passar por tudo como se tudo fosse
o mesmo. Só quando se pára por um momento e se olha
para trás se percebe o percurso. A verdade é que até
olhámos os campos, os montes, o mar. Mas nunca os vimos. Só
aos traços da estrada.
Eco [ CM
]
Nós sempre soubemos que o mais provável era não
conseguir falar com o Umberto Eco. Mas era impossível desistir
sem ter a certeza da impossibilidade. A hipotética conversa
com ele era a abertura para todas as conversas. Quem como ele saberia
ligar todas as ideias que nos guiam e todos os interlocutores que
escolhemos? E questionar-nos sobre o sentido de tudo isto? Era o embate
difícil, assustador, essencial. O acordar para todas as questões
que nos poderiam vir a pôr e o banho de humildade que nos purificaria;
vazios de tão cheios estaríamos prontos a receber realmente
e totalmente todas as outras influências. Como se o Umberto
Eco pudesse ser o motor teórico que nos prepararia para assimilar
a vida. Provavelmente não seria nada disto; o fantástico
da viagem e do encontro é não ser controlável,
programável. Pura e simplesmente acontece. Este não
aconteceu.
Emma [ CM
]
Por acaso falámos com Emma Bonino. A pessoa que até
agora não percebo muito bem em que é que acredita, mas
tenho a certeza que acredita com urgência, essencialidade, verdade.
Não estávamos preparados e fomos arrogantes. Achámos
que falar com ela era fácil, era só fazer umas perguntas.
Esquecemos o essencial: nós somos pessoas em viagem que absorvem
o que vêem, ela é uma pessoa que está a agir sobre
o que vê. O confronto entre pessoas não aconteceu; falámos
línguas diferentes. E se ela falou como Prometeu, nós
teremos falado como o quê? Que muro criámos, o que perdemos,
o que poderíamos ter ganho se tivéssemos sabido entrar
no seu mundo, não sabemos ainda. Mas acredito que esta viagem
também nos ensinará isso: aderir incondicionalmente,
nem que seja só por instantes, é provavelmente a única
forma de passar a fronteira e encontrar o outro.
Parlare non stop [
CM ]
Num palanque um homem fala para uma rua. As poucas pessoas que passam
não param, quase não olham. Ele não discursa,
conversa. Adivinha as interrogações, dúvidas
e hesitações do seu interlocutor e explica, compreende,
descansa-o. Ao lado desta conversa de um com um outro ausente e que
é todos os outros, a vida continua como se ele não existisse.
Quando alguém parar para o ouvir descobrirá que ele
fala de quem não pára e pôr-se-á a caminho.
Milão - 8 de Maio
[ PC ]
Serão loucos ou pessoas que acreditam?
Ou se calhar os loucos são pessoas que acreditam?
Em Milão alguém em cima de um palanque falava para o
vazio numa rua cheia de pessoas. Só nós, estrangeiros,
parámos para ouvir. Era política, eram eleições,
era um discurso liberal, tudo era radical e quase esquizofrénico.
Afinal estava a ser transmitido para a Internet (aquele lugar onde
todos pensam que se viaja muito mas onde poucos reparam na paisagem).
Havia algo de heróico naquela atitude de discursar persistentemente
ao Sol com uma garrafa de água aos pés. Depois de um
vinha logo outro orador. Estavam em jejum segundo fomos informados.
Mas isso já não me interessou, isso era a parte da banalidade,
era a parte que chamava a atenção dos média...
Para mim era o fim do herói.
Mais à frente um outro local, um outro posto de partido político
com cartazes, esferográficas, isqueiros, autocolantes e muita
banalidade para oferecer. Provavelmente de um partido talhado para
vencer.
Nesta nossa Europa o poder é realmente uniforme e isso é
assustador.
É fácil ser vencedor.
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