A
despedida de Londres reserva-nos uma chuva mesquinha e um barco apinhado
de crianças barulhentas até Calais. A chegada a Paris
ao fim da tarde deixa-nos apenas o espaço suficiente para descansar.
O passeio será a pé na luminosa manhã de Domingo,
junto ao Sena, com a Paris de Miterrand como pano de fundo antes do
encontro com Joseph Danan, escritor e professor de dramaturgia.
A conversa prolongar-se-á por quase três horas, ao longo
dos caminhos da dramaturgia, cada vez mais longe dos heróis
(reflexo da sociedade?). Ao contrário de Ramin Gray, Danan
defende a existência de dramaturgos bem diferentes entre si,
procurando caminhos novos em cada obra, abarcando vectores diferentes,
mais ou menos locais, mais ou menos pessoais. Essencialmente, procurando
uma redefinição do teatro.
Depois, a colonização americana e o desafio da preservação
das identidades culturais sem que, para isso, seja necessário
transformar a cozinha tradicional em curiosidade de museu. Sempre
ponderado, viaja pelas mais importantes questões do mundo de
hoje com o optimismo de quem acredita na inevitabilidade da mudança,
apesar da ameaça sempre latente dos ódios xenófobos,
mesmo depois do recuo da extrema direita em França.
Com o fim da tarde, descobrimos a cidade das luzes num pôr do
Sol incendiando o Sena e no encontro acidental com um companheiro
perdido nos tempos da faculdade. O mundo é realmente muito
pequeno. E redondo.
Na manhã seguinte, o início do regresso, ainda com esperança
de encontrar Emir Kusturica pelo caminho. À hora do lanche,
Sergio, da cooperativa Edison, informa-nos que o realizador já
regressou a Paris e não estará connosco. Fica o travo
de desilusão a temperar o final da viagem.
Pernoitámos em San Sebastian, à luz do cubo de Moneo.
O regresso é lento, avesso a certezas. Procuramos agora as
linhas que cosem a viagem, as línguas que a escrevem. O que
fica do que passa.
Será o regresso possível. Ainda e sempre uma partida.