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[ 16 e 17 de Maio ]
QUANTAS FRONTEIRAS TEREMOS DE
ATRAVESSAR PARA CHEGAR A CASA?
Eu
sou melancólico disse Theo Angelopoulos na penumbra do
escritório. Talvez por isso os seus filmes sejam sempre uma
viagem, pela História, pelo Homem, pelo passado. Talvez por
isso parta de carro, sem destino, antes de escrever o argumento de
um filme. À espera das imagens que lhe entram pelo vidro.
Viajando sempre. À procura do equilíbrio no movimento,
à procura da nossa casa, do oásis no meio do deserto,
da poesia do instante que despertará o filme que vamos montando
na cabeça.
E olhamos sempre para trás com saudades do futuro.
Vai enumerando fronteiras à medida que a conversa avança:
as que o separam da filha, a que filmou em O Passo Suspenso
da Cegonha, a morte, o conflito que separa a Grécia da
Turquia, fronteira que se esconde sob a pele, na incapacidade de perceber
e avançar sobre o passado. Porque nada nos separa dos
turcos....
E de novo a História, os impérios que ruíram
a partir do momento em que assumiram posturas arrogantes, como
os Estados Unidos o fazem agora. O cineasta afirma o medo da
uniformização que anula todas as diferenças,
que reduz o tamanho dos dicionários: faltam sonhos ao
mundo de hoje.
No escritório, a penumbra vai aumentando à medida que
a voz de Angelopoulos traça paisagens no vidro de um comboio
que não pára: quantas fronteiras teremos de atravessar
para chegar a casa?.
E o tempo passa sem nos apercebermos. A noite está quase instalada
sobre Atenas quando saímos do escritório do realizador.
Com o fim do dia, a cidade torna-se outra. Apetece passear. Eleni,
a secretária de Angelopoulos, levar-nos-á no dia seguinte
até ao monte Likavitos. Vista dali, Atenas é um mar
de luzes sem fim, tão calmo como o Egeu. Lá do alto,
ninguém diria que, poucas horas antes, vários milhares
de pessoas paralisaram a capital com uma greve geral contra o aumento
da idade da reforma.
A Acrópole, essa, paira circunspecta sobre a cidade.
Os desatinos dos homens não lhe pertencem.
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imagem © Visões Úteis
Theo Angelopoulos, Atenas
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