Chegámos
a Berlim num feriado alemão, calmo e solarengo. Entre gruas
e estaleiros, a nova e imponente cúpula do Reichtag e mais
longe, o novo centro da cidade, a Potsdamer Platz, transformado em
centro comercial, com dinheiro da Sony e da Mercedes Benz, com assinatura
de arquitecto, muito brilho e pouca alma.
Seguindo o trilho do Muro, vê-se a réplica do Check Point
Charlie. O original está no museu e nas lojas ao lado, depósito
dos fetichismos dos turistas. Até ao vazio da Alexander Platz,
fica a ideia de que alguém apagou um desenho antigo e procura
agora pintar sobre uma folha demasiado rasurada para esconder o original.
Invade Berlim o silêncio de um centro comercial contrariado
pela chapa fria do Museu Judeu, pedaço de História cravado
na cidade. Como o obelisco de Kubrik. As portas do museu abrir-se-ão
ao público apenas em Setembro. Ainda assim, é já
paragem obrigatória para milhares de pessoas.
Daniel Libeskind, o autor do projecto, viu-se obrigado a deslocar-se
a França por motivos profissionais, delegando na sua mulher,
Nina, a generosidade de falar connosco. E é entre maquetes
do Museu Judeu e das ideias para a renovação da Terra
de Ninguém que conversamos sobre a reunificação
que quase não saiu do papel. Segundo Nina, as fronteiras
de Berlim estão seis polegadas debaixo do chão e seis
polegadas acima, nas coisas que queremos esquecer e naquelas em que
tropeçamos. A vontade de unir rapidamente o que muitos
anos separaram redundou no desperdício de oportunidades únicas
para a renovação urbana e social. Mas, antes de tudo,
a coragem de mudar radicalmente de vida, instalando-se em Berlim,
pouco depois da queda do Muro, sendo uma família judia. O hábito
de fazer contas para perceber qual o papel que um alemão mais
idoso poderia ter desempenhado nas SS ou na Gestapo.
A memória é um fardo pesado. Ainda hoje, alguns familiares
se recusam a visitá-los em solo alemão.
Três dias mais tarde, em Aachen, Daniel Libeskind confirmará
as suas palavras sobre a arquitectura, a necessidade de, em cada projecto,
criar um espaço sem precedentes, convocando a memória,
a filosofia, a música, o cinema e todas as referências
suscitadas pelo programa.
É um discurso apaixonado, de quem acha que a arquitectura é
uma actividade espiritual, que os arquitectos não podem ser
apenas técnicos, que é necessário perceber a
perenidade das obras e das cidades. Tal como os Romanos acharam que
o Coliseu sobreviveria aos séculos, também nós
nos esquecemos, ao debruçarmo-nos de um arranha-céus,
que as cidades e os impérios caem e se renovam continuamente.
É essa a consciência que transpira do seu trabalho, sem
nunca pretender ignorar a memória, assumindo e integrando todos
os muros que nos enformam.