Since 1994, Visões Úteis has produced more than 40 theatre plays and has also created for other media, namely audiowalks, that are presented here as works of Performance in Landscape.
A relação do Visões Úteis com a cidade de Parma nasceu em 1997 quando, na sequência da selecção para representar Portugal na Bienal de Jovens Artistas da Europa e do Mediterrâneo, a companhia participou no festival de teatro “Anteprima”. Mais tarde, no ano de 2001, e na viagem que integrou o projecto “Visíveis na estrada através da orla do bosque”, Parma foi um ponto de paragem num itinerário físico que, antes de mais, traçava uma viagem de ideias e descobria pontos de contacto nas reflexões de uma diversidade de artistas e intelectuais do nosso continente.
Em ambas as ocasiões foram nossos interlocutores privilegiados os elementos da Fundação Cultural Edison; no primeiro encontro ainda a dar os primeiros passos, no segundo já com um trabalho firmado e diversificado na área da produção cultural, que incluía projectos com nomes grandes como Sebastião Salgado, Emir Kusturica ou Peter Greenaway.
E finalmente, em 2004 surgiu a oportunidade de transformar em colaboração esta empatia pessoal e artística que foi unindo o Visões Úteis à Edison (recentemente rebaptizada de Fundação Solares).
A criação, em co-produção, de um audio-walk original para a cidade de Parma foi o desafio comum. Um desafio que nos atraía especialmente pela especificidade de trabalhar numa cidade que não conhecíamos bem e numa língua que não era a nossa.
Para este trabalho a equipa do Visões Úteis permaneceu em Parma em regime de residência, durante os meses de Abril, Maio e Junho. Mas ainda antes de chegarmos à cidade tínhamos definido a linha dramatúrgica que distinguia essencialmente Errare da anterior experiência com Coma Profundo. O olhar sobre a cidade seria necessariamente um olhar estrangeiro, as impressões recolhidas (da arquitectura, da História, do ambiente deste lugar) seriam necessariamente superficiais. A posição social e politicamente crítica que adoptáramos em Coma Profundo ao reflectirmos sobre a nossa cidade não fazia sentido nesta experiência. Desenvolvemos assim uma narrativa ficcional, uma reflexão ainda sobre a relação entre o homem e o lugar, ainda sobre o lugar da memória, mas agora centrada numa evolução pessoal face a essa reflexão.
Do trabalho desenvolvido ao longo deste meses surgiu ainda um vídeo documental realizado por Michele Putorti - “Errare – Um audio-walk” que já foi exibido em alguns festivais e encontros vídeo.
Em Errare o espectador segue um caminho desenhado pela relação entre duas vozes, duas (id)entidades. A primeira é a de um homem que, ao perceber que começa a perder a memória, decide refugiar-se numa cidade estrangeira e vagabundear até desaparecer. A segunda é a do seu irmão mais novo, que não conhece a cidade e que tenta seguir seus os passos através de uma série de indicações imperfeitas que o irmão lhe deixou, assumindo o espectador como seu cúmplice.
O caminho percorrido parece não fazer sentido, mas a cidade estrangeira transforma-se no território onde se vai questionando o próprio processo de construção da memória.

"Reclaim the Future" is a 2 year European project that brings together partners from Sweden, Portugal, France, Scotland and Latvia. Inspired by the theme of the Carnivals and the change that they allow for, the project aims at giving voice to several european peripheries, finding ties bewtween arists and communties geographicaly distant from each other.
The “Reclaim the Future” event in Portugal, “Exige o Futuro”, was created by Visões Úteis in a coproduction with Porto’s City Council, through the “Expanding Culture” programme. It was inspired by the company’s long relationship with Porto’s area of Campanhã – the most eastern part of the city, and one that faces many economic and social challenges.
The Portuguese event, which happened on the 13th, 14th and 15th of july 2017, aimed at giving public visibility to the work of agents, entities, collectives and associations of Campanhã, as well as to promote the meeting of these groups between themselves and with international groups and artists that develop similar work.
The first day was fully dedicated to a conference entitled “Of the same sort” held at MIRA Art Gallery. Artists, researchers and members of local communities gathered during the morning and afternoon to discuss the nature, purpose and results of art developed within a community context. The conference was simultaneously translated into English, to allow for the participation of all international partners.
Day 2 of the Portuguese event was divided into two activities:
“Europe is here” – a series of meetings between the international partners and local agents (artists, entities, associations) developing their projects in Campanhã area. The “matches” were made taking into consideration the similarity of interests and projects of both sides.
“Renewing the Piece” – the two plays exchanged between Visões Úteis and Swedish partner Teatermaskinen were publicly presented on this evening: Visões Úteis’s adapation of the Swedish show “C’est Tout”, based on a text by Marguerite Duras, and Teatermaskinen’s version of Visões Úteis’ original play “trans/mission” (presented in its English version).
And finally, on day 3, the central moment of the whole event took place – the “Unleashed Parade”! Created with and by the local communities during the previous months, the Parade was a two-hour long path across a public space, involving the participation of around 200 people living and/or working in Campanhã. A path filled with music, dance, theatre, space interventions, designed to highlight the different talents of all the participants, and recuperate the joy of meeting, and of sharing a common space.
In the year following this Carnival, a variety of activities included in “Exige o Futuro” will continue to be developed, such as a documentary video, a grant for community projects, a book, a Social Cartography workshop, among others.
Ao longo do ano de 2001, com o projecto “Visíveis na Estrada através da Orla do Bosque”, o Visões Úteis abordou pela primeira vez a questão do espaço público, exprimindo em palco uma sentida apreensão em relação a este tempo de grandes cidades forradas a granito frio e vias rápidas, onde a palavra comunidade vai perdendo significado. Utilizámos impressões que nos foram transmitidas por pessoas como o arquitecto Daniel Libeskind (que ainda antes do 11 de Setembro dizia que um empresário instalado no cimo de uma torre espelhada de Wall Street imaginava-a indestrutível, como um romano imaginaria indestrutíveis as grandiosas obras do seu império) ou o cineasta Theo Angelopoulos (que avisava: Todos os Impérios caem quando se tornam arrogantes).
Já no início de 2002, no texto “Um Monólogo” de Gregory Motton, que levámos à cena como parte do espectáculo “Celebração”, a reflexão estendeu-se à arrogância com que o Homem trata o que a História lhe lega, julgando-se melhor só porque hoje está vivo.
O desenvolvimento destes temas, a sua ligação intrínseca, trouxe-nos a Coma Profundo, um projecto que tenta reflectir sobre o modo como lidamos com a morte do homem e a morte do espaço, ou seja, como lidamos com a nossa memória individual e colectiva.
Atravessamos um espaço como um local utilitário, ignorando, activa ou passivamente, que ele foi parte da vida de milhões de homens antes de nós. Desprezamos a vida, o trabalho, os erros de todos os que nos precederam na vã convicção de que somos melhores, faremos melhor. Desprezamos a memória dos homens mortos. Desprezá-los ajuda a adiar a consciência da nossa própria efemeridade, da nossa própria capacidade de errar, da possível futilidade de todas as nossas grandes certezas e aspirações. Vamos esquecendo e construindo de novo, cada vez maior e mais alto, para que a marca agora seja indelével, como se a História a nós não nos apanhasse. Vamos fazendo planos, e Deus vai-se rindo.
Coma Profundo cumpre-se com a confrontação directa, física, do público com a cidade que habitamos e sobre a qual reflectimos. Definimos um percurso numa zona antiga da cidade do Porto. Antiga num sentido muito diferente do pitoresco de um guia turístico. Aqui não há um microcosmos histórico conservado para deleite voyeurístico. Pensamos que estamos ainda a mover-nos na cidade que habitamos e de repente deixamos de ver pessoas, deparamo-nos com elementos que parecem fora do contexto, cuja utilização ou razão de existir nos escapa. Os carros investem por ruas onde parecem não caber. Uma igreja permanece de portas abertas e bancos vazios, como um homem de braços estendidos para acolher um amigo que já não vem. Quase nos convencemos que não habita ali ninguém, não fosse o som de rádio que ocasionalmente se escapa de uma casa ou a roupa estendida ao sol aqui e ali.
Seguimos as indicações do guia. Um homem pragmático que domina o nome das ruas e a cronologia das construções. Um homem que executa uma tarefa. Mas é uma voz feminina que nos faz verdadeiramente mergulhar no espaço que atravessamos. Uma mulher que recolhe impressões como se fossem pistas. Uma mulher que procura fazer uma cartografia do impreciso.
Aqui tudo cheira a passado, um passado que se vai desfazendo aos poucos, nem amado nem odiado, deixado ali a morrer como um parente idoso no quarto dos fundos. De vez um quando uma casa restaurada e com aspecto de valer muitos milhões no mercado imobiliário tenta contradizer-nos, diz-nos que alguém quer hoje viver ali. Mas rapidamente percebemos que não é ali que se quer viver, é atrás de um muro alto, num qualquer sétimo andar com vista para o mar. As ruas, essas, continuam desertas.
Percorremos essas ruas e é difícil acreditar que estamos em pleno Porto, Porto dos Shoppings um-maior-que-o-outro, Porto dos estádios para o EURO-2004. E no entanto, duas ou três ruas acima, mesmo ali ao lado, sem sabermos bem onde se deu a mudança, eis que aparece, essa cidade nova que avança e nos aponta o seu exército de gruas, e já estamos cercados por uma fiada ininterrupta de automóveis furiosos, e já as pessoas atravessam o espaço correndo, mesmo quando se arrastam de dores e cansaço.
Como podem persistir estas duas realidades lado a lado? Alguma terá de prevalecer; em breve precisaremos também desse bocadinho de espaço. Já não basta ignorar o passado e deixá-lo desvanecer-se ao ritmo do esquecimento - não temos tempo! - será necessário agir. A cidade nova estenderá mais um dos seus braços brancos e transformará a morte abandonada em vida amortalhada.
No centro desta nova cidade que cresce sem cessar, sentados numa das suas inúmeras rotundas, largos sem vida rodeados de movimento incessante, vemos o betão e o granito que ameaçam conquistar o último centímetro de terra e de memória e sentimo-nos infinitamente sós. Sentimo-nos infinitamente pequenos no meio do novo império que ajudamos diariamente a construir e que, como todos os outros, cairá pela sua arrogância.