Since 1994, Visões Úteis has produced more than 40 theatre plays and has also created for other media, namely audiowalks, that are presented here as works of Performance in Landscape.
Estreou a 25 de Maio de 2007 no FITEI.
Marlow relata a sua viagem, rio acima, na direcção do mais remoto dos entrepostos comerciais. À medida que sobe o rio confronta-se, de forma violenta, não só com as trevas que pressente para lá das margens mas sobretudo com aquelas que vai cartografando no coração dos homens.
Evocando a recordação de Marlow, um taxista erra pela cidade ao encontro das suas trevas.
Um audiowalk é um passeio sonoro. Um guia áudio que conduz o ouvinte por um determinado percurso. No caso dos audiowalks do Visões Úteis, o percurso é desenhado pela cidade– o espaço público.
Conhecemos o conceito audio-walk em Londres no ano 2000 através de um trabalho da artista canadiana Janet Cardiff - “Missing Voice (case study B)” - que desenhava um percurso por ruas londrinas a pretexto de uma história vagamente policial. Ficámos fascinados pelo meio em si; um espectador solitário põe uns auscultadores, deixa-se conduzir pela voz na gravação do leitor de CD portátil que transporta consigo, e de um momento para o outro é incapaz de distinguir o ruído real do gravado ou de desobedecer à voz que guia os seus passos. Isolado com o seu guia, num mundo sem fronteiras definidas entre realidade e ficção, o espectador/ouvinte abandona-se e deixa-se encantar.
No Visões Úteis acreditamos que as pessoas só ouvem o que já sabem e para que ouçam o que queremos dizer temos de ser capazes de as desconcertar ou embalar. A imersão na ficção que o audio-walk provoca não podia deixar de nos seduzir.
Em 2001 com o projecto Visíveis na Estrada através da Orla do Bosque a ideia de percurso ganhou novos significados. Numa viagem de 10.000 Km por estradas europeias ao encontro de pensadores de diversas áreas, discutimos as ideias de fronteira e de identidade. A viagem, como sempre, é instrumento para a descoberta da “casa”. Importava mais do que nunca criar sobre o nosso local – questionar o nosso aqui e agora.
Nas cidades portuguesas, como em grande parte das cidades europeias, o espaço público está a ser abandonado. No Porto, a nossa casa, 2001 foi o ano de inauguração das praças lisas de granito que ninguém atravessa. E a ideia de audiowalk ganhou assim um novo significado: forçar o olhar sobre as ruas da cidade. O urbanismo, a História, as pedras de cada caminho como parte da identidade colectiva e individual.
Em 2002 quando decidimos criar um audiowalk, o meio que inicialmente nos tinha seduzido já era indissociável dos conceitos de espaço público e identidade. audiowalk é o meio que simultaneamente arranca o espectador à realidade e o liga às ruas que percorre. E é também simultaneamente o espectáculo de teatro em que o público é o protagonista e a banda sonora a que se abandona.
Ao trabalhar estes conceitos paradoxais tudo se vai simplificando. Mais do que paradoxo temos ilusão. O público só é protagonista da sua própria fruição, como em qualquer espectáculo. E a ligação profunda à realidade é completamente manipulada. Tudo é finalmente ficção. Ainda que a ficção seja criada em estreita ligação com o local e inspirada pelas inúmeras vozes reais que habitam o percurso. Só assim a ilusão é possível.
Coma Profundo foi criado em 2002 como objecto único. Sem possibilidade de continuação. Quisemos pensar as ruas da nossa cidade através desta fusão entre teatro, música e urbanismo. Com um andar melancólico – mas nunca saudosista – percorremos as ruas desertas da Foz Velha; zona paradigmática do abandono do espaço público, onde os condomínios fechados vão expulsando os habitantes de sempre. A dramaturgia e a bando sonora são directamente influenciadas pelo espaço e até as personagens são emanações do local. O percurso é o tema, sem nunca sairmos da ficção.
Errare, criado em 2004, é quase um objecto impossível. Fomos pensar ruas distantes - as da cidade de Parma, em Itália. A impossibilidade de tratar o desconhecido criou novos desafios a um objecto que não deixou nunca de ser um meio de reflexão sobre o espaço público e a identidade. Lançámos para as ruas de Parma dois estrangeiros como nós que encontram vestígios de si mesmos em pedras que não são suas. O percurso, a viagem, constrói a descoberta. Basta um olhar atento ao caminho e a disponibilidade para o percorrer.
Em 2006 publicamos o Caderno III do Visões Úteis onde estão os textos destes audiowalks.
O espectador desloca-se ao local de levantamento do equipamento (Coma Profundo: guichet do fiscal do Mercado da Foz, Porto; Errare: IAT – Tourist Office, Parma) e em troca de um documento de identificação recebe um Discman e respectivos auscultadores e inicia uma experiência audio-espacial que o leva a percorrer várias ruas seguindo as instruções que ouve. A viagem a que se submete acontece numa dimensão definida pela paisagem real por onde se desloca e pela paisagem sonora em que imergiu. No fim, regressa ao ponto de partida para devolver o equipamento.